Clique no link abaixo para acessar o estudo sobre o FGC (Fundo Garantidor de Crédito) realizado pela equipe TAG Investimentos.

 http://taginvest.com.br/img/EstudoFGCRevisado.pdf

Aplicador negligencia risco de crédito com cobertura do FGC

Por Adriana Cotias

O aplicador que se fia na cobertura de R$ 250 mil do Fundo Garantidor de Créditos para comprar títulos bancários sem ligar muito para o risco de crédito pode fazer um mau negócio se o banco enfrentar problemas. Essa garantia, que se tornou peça de marketing no repertório de analistas à frente das plataformas de investimentos de varejo, de fato representa uma segurança para quem adquire Certificados de Depósitos Bancários (CDB) ou letras de crédito, às vezes de emissores não tão conhecidos. Mas o tempo que o FGC leva para ressarcir os aplicadores mostra que as taxas mais convidativas não compensam se o pior acontecer.

Segundo levantamento da TAG Investimentos, na média, o pagamento nos últimos cinco casos de intervenção pelo Banco Central, de 2012 para cá, foi de três meses e três dias corridos. Conforme calcula a gestora de patrimônio, um CDB de um ano (252 dias úteis) a 100% do CDI, caso não tenha juros capitalizados por esse período de 66 dias, seria equivale a um título que proporcionasse retorno de 72,5% do CDI.

O caso que demorou mais tempo foi o do Banco Prosper, de cinco meses e quatro dias, mas também houve um pagamento feito em 27 dias, o do BRJ. No episódio do Banco Rural, com base maior de clientes, o investidor levou 3 meses e 6 dias para receber porque uma medida judicial atrasou o processo.

“O investidor acaba negligenciando o risco e começa a ter o caso de diversos bancos usando [a cobertura do FGC] como peça de marketing, o que cria um incentivo contrário perverso para a captação”, diz Marco Bismarchi, sócio e gestor da TAG. “Apesar de não ter o principal em risco porque a estrutura do FGC é robusta, o tempo acaba comendo a rentabilidade. Muitas vezes não faz sentido pelo risco que está correndo.”

Conforme o raio-X feito pela casa, com dados até o primeiro semestre de 2016, uma fatia de 87,2% dos depósitos elegíveis às garantias do fundo, o equivalente a R$ 1,6 trilhão, provém do grupo de bancos “muito grandes para quebrar”, com risco de crédito considerado baixíssimo. Quando se leva em conta as instituições menores e, potencialmente, mais vulneráveis, cerca de R$ 127 bilhões de depósitos necessitariam, de fato, desse seguro.

Para a analista de crédito da gestora, Carolina Camões – responsável pelo levantamento -, a garantia do FGC acabou por igualar o risco de crédito das instituições menores, dado que conseguem captar a taxas relativamente baixas em relação ao seu risco. “Pode ser um incentivo para o banco não fazer o dever de casa para manter um balanço saudável”, afirma. Nas suas avaliações antes de recomendar um ativo, a analista afirma que se vale de dados da base do BC para medir a evolução do patrimônio, do índice de Basileia – indicador de alavancagem que mede, por exemplo, a capacidade de crédito de um banco com base no seu capital -, a rentabilidade, bem como as provisões para devedores duvidosos, o colchão que o banco reserva para potenciais calotes.

No rol de emissores que a casa tem recomendado, há nomes como ABC Brasil, Original, BMG e BBM, instituições que coincidentemente têm nota de crédito de agências de classificação de risco. Muitas instituições que captam via plataformas de investimentos não contam com esse tipo de análise, que pode ser um ponto de partida para a tomada de decisão. Emissores que pagam a mesma taxa não têm necessariamente riscos equivalentes, adverte Carolina. Procurada, a Associação Brasileira de Bancos (ABBC), que representa as instituições de menor porte, não concedeu entrevista.

“O mercado brasileiro desenvolveu um modelo que ajudou a estabilizar a captação dos bancos, foi bom para o sistema, excelente para banco médio, que tem operação de dois, cinco, sete anos, conseguiu dinheiro em operações longas”, diz o sócio da plataforma de investimentos Easynvest Marcio Cardoso. “O FGC começou a abrir as portas, agora é só um estabilizador.” O executivo reconhece, porém, que há uma parcela dos investidores que não olha os riscos diferentes e que é papel dos intermediários promover esse tipo de educação financeira, que o aplicador não pode comprar nada às cegas só porque conta com o cobertor do FGC.

O FGC é financiado por meio de contribuição dos bancos associados. Conforme determina o Banco Central, as instituições têm obrigatoriedade de filiação a partir do momento em que emitem um dos papéis garantidos e contribuem, mensalmente, com 0,0125% do valor dos saldos das contas de ativos garantidos.

A garantia do FGC é um fator importante, mas deve ser considerada como uma proteção adicional, diz Carlos Albuquerque, superintendente de produtos da Cetip, que centraliza o registro de títulos de crédito privado. “Não é porque eu contratei um seguro de carro, que quero usar”, compara. “O aplicador não pode se furtar de conhecer qual é o emissor, entender minimamente qual o conforto que tem com aquele risco primário.”

A Órama tem até uma calculadora de renda fixa disponível na plataforma que leva em conta o FGC, ferramenta que tem sido um “sucesso”, nas palavras do sócio e executivo-chefe da instituição, Habib Nascif. “Com ela o cliente escolhe qual o período que quer os títulos e na tela vê as melhores taxas no período. Quando escolhe em qual investir, sabe a rentabilidade até o resgate e se já tem algum valor aplicado naquele emissor e quanto pode aplicar para ficar coberto pelo FGC.” Uma consulta aos títulos disponíveis no site da instituição mostra financeiras como Dacasa, Estrela Mineira, Brickell e Barigui, além de emissores bancários mais conhecidos.

Pelo levantamento da TAG, a cobertura do FGC abarcava 192,9 milhões de clientes na faixa até R$ 5 mil (88,4%) e outros 8,3 milhões em depositantes de até R$ 10 mil.

Comparando-se com dados mundiais do IADI – um fórum de “seguradores de depósitos” – e aplicando-se uma série de filtros a TAG mostra que, em valores absolutos, os Estados Unidos fornecem a maior garantia aos depositantes, de US$ 250 mil, com o Brasil na 32ª posição, com o equivalente a US$ 75 mil. Mas quando se faz uma comparação usando-se o PIB per capita por valor garantido, o país ocupa a oitava posição na lista, tendo uma garantia de quase 9 vezes o PIB per capita da população.

A percepção de Bismarchi, da TAG, é que a garantia do FGC é exageradamente alta para o nível de poupança e renda do brasileiro, comparativamente aos demais países de renda semelhante e pelo fato de o grosso das garantias estar concentrado em depósitos baixos, de até R$ 5 mil. A avaliação é que para ter uma garantia maior, os bancos precisam pagar um percentual mais elevado em relação aos ativos que emitem e quem paga a conta, no final, são os tomadores de crédito na outra ponta.

Procurado, o FGC não retornou ao pedido de entrevista.